Objetos verbais não identificados (ensaio de Flora Süssekind)

O Globo publicou hoje (21/9/2013) ensaio de Flora Süssekind que aborda, entre outros livros, Delírio de Damasco, de Veronica Stigger

Há, também, transferência material em “Delírio de Damasco”, de Veronica Stigger, que foi originalmente uma exposição de parte dos textos compilados no livro, realizada, em 2010, em tapumes da unidade 24 de maio do SESC São Paulo. Se o caráter verbal dos fragmentos de conversa ouvida ao léu, das frases recortadas ou inventadas, é semelhante na mostra e no livrinho, da dimensão minúscula da publicação parece emergir a ideia de uma apropriação meio secreta, indevida, fantasiosa às vezes, do rumor da rua. O que assinalam, mais uma vez, de cara, as epígrafes à beira do contraditório — sobre o que a frase ouvida casualmente conteria de presságio (De Quincey) e o comentário de Oswald — “A gente escreve o que ouve — nunca o que houve”. Livro composto inteiramente de vozes, que dialoga, assim, tanto com as apropriações oswaldianas, quanto com a poesia coral de Francisco Alvim. E assinala um processo de composição via ready-made — como é o seu em “Destinos” (extraído das linhas de ônibus paulistas) ou “Luana”, de “Gran Cabaret Demenzial”, em toda a seção “Histórias da Arte” de “Os anões”, nos reclames, conselhos caseiros, ilustrações de época que irrompem, vez por outra, em “Opisanie Swiata”, e se mantêm ali, soltos, desencaixados, quase coisas, como Bopp, o senhor Andrade, Opalka, cujo decalque obrigatório cria uma espécie de relevo, de rugosidade, em narrativa enganosamente ligeira, plana.

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Veronica Stigger: ‘As frases contêm elementos que fazem o leitor pensar, imaginar o que pode estar ali por trás’

Entrevista concedida por Veronica Stigger ao nós da comunicação sobre Delírio de Damasco:

No livro ‘Delírio de Damasco’ (Ed. Cultura e Barbárie, 2012), a gaúcha Veronica Stigger registrou frases entreouvidas por aí. Captados nas ruas da metrópole, os fragmentos de discurso podem ser enigmáticos, eróticos, divertidos ou vazios, mas sempre intrigantes. “Uma frase deslocada de seu contexto original pode adquirir sentidos renovados”, diz a autora. “Acredito que um certo momento da nossa sociedade está inscrito nessa sequência de frases. Por isso, gosto de pensar que o que fiz foi uma espécie de arqueologia poética do presente.” Confira a entrevista:

Nós da Comunicação – O que revelam os fragmentos de conversas pinçados aqui e ali nas ruas de uma metrópole?
Veronica Stigger –
 Em geral, os fragmentos giram em torno da tríade mais frequentada nas conversas brasileiras (e talvez não só nestas, mas vivemos aqui…): sangue, sexo e grana.

Nós da Comunicação – Como foi o processo de escolha e edição das frases que compõem o livro?
Veronica Stigger – 
Dentre os tantos fragmentos que ouvi por aí, selecionei aqueles que possibilitavam as mais diferentes leituras e aqueles que chamam a atenção pelo inusitado do assunto ou pela maneira especialmente significativa como são ditos. Acredito que um certo momento da nossa sociedade está inscrito nessa sequência de frases. Por isso, gosto de pensar que o que fiz foi uma espécie de arqueologia poética do presente.

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“Palavras soltas nas ruas”, por Dirce Waltrick do Amarante

O Estadão publicou hoje (30/1/2013) uma resenha, escrita por Dirce Waltrick do Amarante, de Delírio de Damasco, de Veronioca Stigger:

“O mundo está cheio de objetos, mais ou menos interessantes; eu não desejo acrescentar nenhum outro”, afirmou o artista conceitual norte-americano Douglas Huebler.

Em Delírio de Damasco (Cultura e Barbárie, 80 págs., R$ 30), publicado no fim do ano passado, a escritora gaúcha Veronica Stigger parece concordar com a afirmação de Huebler.

O seu livro é um compêndio de frases ouvidas casualmente na rua, como ela própria admite no posfácio: “Delírios de Damasco é uma reunião dessas frases ouvidas aqui e ali, numa espécie de arqueologia da linguagem do presente, em busca da poesia inesperada – dura ou tenra, ingênua ou irônica – que pudesse haver em meio a nossos costumeiros diálogos sobre a tríade sangue, sexo, grana”.

Talvez pudéssemos incluir Veronica Stigger num grupo de escritores e artistas “não criativos”, expressão tomada de empréstimo do livro Uncreative Writing, do também americano Kenneth Goldsmith. Esses artistas, que começaram a produzir mais intensamente no início do século passado, criam obras tendo como ponto de partida a recomposição de frases e informações já prontas. Entre os predecessores dessa prática podemos citar os readymades de Marcel Duchamp e a escrita automática dos surrealistas.

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“Gosto de explorar os limites entre as formas literárias”: entrevista com Veronica Stigger

A Revista Continente publicou uma entrevista com Veronica Stigger, concedida a Olívia de Souza, em que a autora fala de sua obra e de seu mais recente lançamento, Delírio de Damasco.

CONTINENTE: “Os Anões” foi lançado em formato pequeno e papel cartonado. “Delírio de Damasco” foi produzido de forma artesanal, é um livro minúsculo em seu tamanho físico. A experimentação, pelo que dá pra perceber, vai além do teu texto. Isso também é uma escolha sua, ou da editora?

VERONICA STIGGER: É uma escolha minha em diálogo com a editora. Ultimamente, tenho, de fato, levado a experimentação para além do texto escrito, não apenas, como você bem percebeu, transportando-a para o formato do livro, mas também para além dele. Em 2010, fui convidada pelo SESC a fazer uma intervenção nos tapumes da unidade em construção da rua 24 de Maio, em São Paulo. Nesta intervenção, está a origem de Delírio de Damasco. Propus realizar uma série de placas contendo frases de conversas alheias que ouvi aqui e ali na rua, em ônibus, em bares etc. Minha ideia era devolver para a rua fragmentos de narrativas que havia colhido, como uma espécie de arqueóloga do presente, justamente na rua. Delírio de Damasco reúne as frases contidas nas placas exibidas e mais muitas outras que fui juntando depois da mostra. Atualmente, até 1º de fevereiro, está em cartaz na Embaixada do Brasil na Bélgica outra exposição minha, chamada Sarau, em que levo textos já publicados e outros inéditos para além do suporte livro. Um destes trabalhos, “Minha novela”, pode ser visto no Youtube, mas sem, é claro, a ambientação criada para a mostra.

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