A “demoiselle” e os dentes (trecho de Locus solus)

O caderno Ilustríssima (Folha de S. Paulo) de domingo (22/09/2013) publicou um trecho da tradução de Locus solus, de Raymond Roussel, a ser lançado em novembro pela C&B

À medida que subíamos, a vegetação se tornava mais rara. Logo o solo acabou de se desnudar completamente e, no final do trajeto, avistamos uma grande esplanada inteiramente descoberta.

Demos alguns passos em direção a um ponto onde se erguia uma espécie de instrumento de pavimentação, lembrando por sua estrutura as “demoiselles” -ou maços de calceteiro- empregados no nivelamento das ruas.

De aparência leve, ainda que inteiramente metálica, a “demoiselle” estava pendurada em um pequeno aeróstato amarelo claro que, por sua parte inferior, alargada circularmente, fazia pensar na silhueta de um balão.

Embaixo, o chão estava guarnecido da maneira mais estranha.

Numa grande extensão, dentes humanos se espalhavam por todos os lados, oferecendo uma grande variedade de formas e cores. Alguns, de uma brancura luminosa, contrastavam com incisivos de fumantes que forneciam a gama inteira dos castanhos e dos marrons. Todos os amarelos figuravam no estoque bizarro, desde os mais vaporosos tons palha até as piores nuances fulvas. Dentes azuis, claros ou escuros, traziam seu contingente a essa rica policromia, completada por um sem número de dentes pretos e pelos vermelhos pálidos ou berrantes de muitas raízes sanguinolentas.

Os contornos e as proporções diferiam ao infinito –molares imensos e caninos monstruosos ao lado de dentes de leite quase imperceptíveis. Numerosos reflexos metálicos brilhavam aqui e ali, provenientes de chumbagens ou aurificações.

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“Procedimentos contra o vazio”, por Joca Terron

Texto de Joca Terron publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo (22/09/2013) sobre Raymond Roussel, que terá dois livros lançados esse ano pela C&B

São tempos magnéticos para o nome, algo obscuro, de Raymond Roussel. Diversos acontecimentos dedicados à vida e à obra do poeta, escritor e dramaturgo francês, nascido em Paris em 1877 e suicidado em um hotel da Sicília em 1933, procuram ampliar seu público reduzido -porém riquíssimo, segundo o editor Jean-Jacques Pauvert: “Não dá mais para contar os artigos e livros consagrados a Roussel. Em compensação, podem-se contar facilmente seus leitores. Mas que leitores!”.

Entre os elogios feitos a Roussel por leitores ilustres, Pauvert recorda que Marcel Proust o via como “um prodigioso conjunto de ferramentas poéticas”. Entre os surrealistas, uma tríade notória assim o definiu: “o maior magnetizador dos tempos modernos” (André Breton); aquele que “nos mostra tudo o que não foi; apenas essa realidade nos importa” (Paul Éluard); “a estátua perfeita do gênio” (Louis Aragon). Por fim, resumindo, disse o escritor Jean Ferry: “Depois dele, vem toda a literatura moderna”.

A influência de Roussel sobre movimentos artísticos do século 20 foi resumida, no ano passado, na exposição “Locus Solus – Impressões de Raymond Roussel”, montada em conjunto pela Fundação Serralves, de Portugal, e pelo museu espanhol Reina Sofía (passando também pela Biblioteca Nacional francesa), com grande afluência de espectadores.

“Locus Solus” (1914) é também o título do principal romance de Roussel. O livro protagoniza o mais recente e mais interessante –para o leitor brasileiro– capítulo dessa nova vaga de “rousselmania”. Em tradução de Fernando Scheibe, “Locus Solus” ganha, em novembro, edição pela Cultura & Barbárie.

Simultaneamente, a editora catarinense lança a coletânea “Como Escrevi Alguns de Meus Livros”, organizada e traduzida por Fabiano Barboza Viana (como Scheibe, rousselmaníaco de carteirinha).

A seleção inclui o ensaio considerado seu testamento literário (e de fato deixado com seu advogado, com orientações restritas para sua publicação póstuma), além do conto “Entre os Negros” (que em 1910 daria origem ao volume “Impressions d’Afrique”) e do capítulo inicial do estudo “Da Angústia ao Êxtase”, do psiquiatra Pierre Janet, precursor da psicanálise, mestre de Jung e médico de Roussel.

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