Como escrever mal (por Victor da Rosa)

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Victor da Rosa resenha as Nouvelles Impressions du Petit Marco, de César Aira, para o primeiro número da revista Laboratório (literatura e crítica).

 

No começo de 1990 – mais precisamente em março daquele ano – o escritor argentino César Aira inicia um período de residência na Maison des Écrivains Étrangers et des Traducteurs, localizada em Saint-Nazaire, região da França, onde permanece dois meses escrevendo um relato curto e muito curioso, Nouvelles Impressions du Petit Maroc. O livro, que ainda não havia sido publicado na América Latina, mas somente na França, em 1991, acaba de sair por uma pequena editora de Florianópolis, a Cultura e Barbárie – o que, aliás, reafirma o gosto do escritor de ser publicado por editoras alternativas – traduzido do espanhol por Joca Wolff.

O relato, no entanto, apesar de mais ou menos desconhecido – e isso não é o mais importante, de fato, principalmente por se tratar de um escritor com obra tão dispersa, repleta de títulos praticamente invisíveis – deve ocupar uma posição de interesse entre tantos livros de César Aira. Isto porque uma série de traços, estratégias e procedimentos, que depois se tornaram mais recorrentes em sua literatura, já aparecem ali. Um deles, talvez o de maior interesse, diz respeito a uma idéia – na verdade, uma prática – tão cara ao escritor: como escrever mal.

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“Por um contra-mercado editorial” (Sérgio Cohn, revista Nau n.3)

Matéria de Sérgio Cohn na Nau n.3 sobre a Cultura e Barbárie a a Sol Negro:

Circula no meio literário carioca a história sobre uma briga entre um poeta da geração marginal e o editor de uma das mais prestigiosas casas do Brasil. O poeta, que já havia sido publicado pelo editor quando este trabalhava em outra empresa, foi procurá-lo com um livro novo, e ouviu deste a justificativa para a recusa da edição: “vocêm tem que entender, meu caro, que uma edição custa tanto, e precisa vender tanto para se pagar, o que demora tantos anos no caso de poesia, e portanto é preciso de tanto de investimento”… A conversa foi por aí, até que o poeta, cansado, respondeu: “Estranho, achei que o nome da sua editora continha a palavra ‘Letras’, e não ‘Números'”.

Essa história é exemplar para falar sobre o nosso mercado editorial, e o quanto relevante é o aparecimento, de tempos em tempos, de propostas corajosas por microeditoras, capazes de arejar o circuito com títulos e táticas inovadoras. É o caso de duas editoras em atividade no Brasil atualmente: Cultura e Barbárie e Sol Negro. As duas trabalham com livros artesanais e de pequenas tiragens, e se destacam pela qualidade do catálogo.

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“La soledad globalizada es un síntoma de época”, entrevista com Ernesto Sinatra

Entrevista de Ernesto Sinatra para o Télam sobre @s nov@s adit@s: a implosão do gênero na feminização do mundo

 

Sinatra es psicoanalista y co-fundador del TYA (red internacional del campo freudiano en toxicomanía y alcoholismo); es miembro de la Asociación Mundial de Psicoanálisis (AMP) y de la Escuela de Orientación Lacaniana (EOL).

Entre otros libros, publicó La racionalidad del psicoanálisisNosotros los hombres, ¿Todo sobre las drogas? y Las entrevistas preliminares y la entrada en análisis.

Esta es la conversación que sostuvo con Télam.

T : ¿Quiénes son los “nuevos” adictos, y en qué se diferenciarían de los “viejos”? El modo en el que lo escribís tiene desde el inicio una particularidad…
S : Sí, es así. En primer lugar, el título del libro es -en verdad- impronunciable. Es resultado de la variación de los usos del lenguaje en las prácticas cotidianas de los ciudadanos y los consumidores actuales. Al escribir nuev@s adict@s con el signo arroba, se denotan dos rasgos de la época: la web-globalización y la impronta producida en los usos de la lengua por las batallas del género –p.ej. @ no es índice de masculino o femenino, designa de un modo neutro, en este caso: inclusivo.

Los nuev@s adict@s obedecen a la globalización hiper-moderna; es necesario circunscribir el escenario del capitalismo contemporáneo realizado como democracia de mercado en Occidente, para leer desde allí las transformaciones actuales de hombres y mujeres en su relación con los tóxicos contemporáneos. Desde los tradicionales adictos al alcohol y a las drogas se pasó a los consumidores actuales, que emplean sustancias cada vez más sofisticadas. Pero además existe una variedad de consumos tan extendida como lo son las acciones que denotan los más diversos modos de gozar: work-alcoholicscyber-adictos; tele-adictos; ludo-adictos; sexo-adictos; personas tóxicas…por lo antedicho la lista es interminable.

El libro es un work in progress de una investigación que lleva años y está atravesado por una hipótesis con la que pretende demostrar algunos alcances en la civilización, a partir de la secuencia: de (1) la caída del padre -se sigue- (2) el declive de lo viril -a lo que responde- (3) la feminización del mundo. Puede constatarse que la crisis actual de las normas se corresponde con la caída del padre, y con el declive de lo viril. Desde los fenómenos que muestran el descenso de la autoridad, que preocupa a los educadores tradicionales y -sobre todo- a los encargados de llevar adelante políticas de Estado (en educación). Y no menos -hoy más que nunca- las mujeres que se lamentan de no conseguirverdaderos hombres.

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A “demoiselle” e os dentes (trecho de Locus solus)

O caderno Ilustríssima (Folha de S. Paulo) de domingo (22/09/2013) publicou um trecho da tradução de Locus solus, de Raymond Roussel, a ser lançado em novembro pela C&B

À medida que subíamos, a vegetação se tornava mais rara. Logo o solo acabou de se desnudar completamente e, no final do trajeto, avistamos uma grande esplanada inteiramente descoberta.

Demos alguns passos em direção a um ponto onde se erguia uma espécie de instrumento de pavimentação, lembrando por sua estrutura as “demoiselles” -ou maços de calceteiro- empregados no nivelamento das ruas.

De aparência leve, ainda que inteiramente metálica, a “demoiselle” estava pendurada em um pequeno aeróstato amarelo claro que, por sua parte inferior, alargada circularmente, fazia pensar na silhueta de um balão.

Embaixo, o chão estava guarnecido da maneira mais estranha.

Numa grande extensão, dentes humanos se espalhavam por todos os lados, oferecendo uma grande variedade de formas e cores. Alguns, de uma brancura luminosa, contrastavam com incisivos de fumantes que forneciam a gama inteira dos castanhos e dos marrons. Todos os amarelos figuravam no estoque bizarro, desde os mais vaporosos tons palha até as piores nuances fulvas. Dentes azuis, claros ou escuros, traziam seu contingente a essa rica policromia, completada por um sem número de dentes pretos e pelos vermelhos pálidos ou berrantes de muitas raízes sanguinolentas.

Os contornos e as proporções diferiam ao infinito –molares imensos e caninos monstruosos ao lado de dentes de leite quase imperceptíveis. Numerosos reflexos metálicos brilhavam aqui e ali, provenientes de chumbagens ou aurificações.

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Leia também Procedimentos contra o vazio, texto de Joca Terron sobre Roussel >>>

“Procedimentos contra o vazio”, por Joca Terron

Texto de Joca Terron publicado no caderno Ilustríssima, da Folha de S. Paulo (22/09/2013) sobre Raymond Roussel, que terá dois livros lançados esse ano pela C&B

São tempos magnéticos para o nome, algo obscuro, de Raymond Roussel. Diversos acontecimentos dedicados à vida e à obra do poeta, escritor e dramaturgo francês, nascido em Paris em 1877 e suicidado em um hotel da Sicília em 1933, procuram ampliar seu público reduzido -porém riquíssimo, segundo o editor Jean-Jacques Pauvert: “Não dá mais para contar os artigos e livros consagrados a Roussel. Em compensação, podem-se contar facilmente seus leitores. Mas que leitores!”.

Entre os elogios feitos a Roussel por leitores ilustres, Pauvert recorda que Marcel Proust o via como “um prodigioso conjunto de ferramentas poéticas”. Entre os surrealistas, uma tríade notória assim o definiu: “o maior magnetizador dos tempos modernos” (André Breton); aquele que “nos mostra tudo o que não foi; apenas essa realidade nos importa” (Paul Éluard); “a estátua perfeita do gênio” (Louis Aragon). Por fim, resumindo, disse o escritor Jean Ferry: “Depois dele, vem toda a literatura moderna”.

A influência de Roussel sobre movimentos artísticos do século 20 foi resumida, no ano passado, na exposição “Locus Solus – Impressões de Raymond Roussel”, montada em conjunto pela Fundação Serralves, de Portugal, e pelo museu espanhol Reina Sofía (passando também pela Biblioteca Nacional francesa), com grande afluência de espectadores.

“Locus Solus” (1914) é também o título do principal romance de Roussel. O livro protagoniza o mais recente e mais interessante –para o leitor brasileiro– capítulo dessa nova vaga de “rousselmania”. Em tradução de Fernando Scheibe, “Locus Solus” ganha, em novembro, edição pela Cultura & Barbárie.

Simultaneamente, a editora catarinense lança a coletânea “Como Escrevi Alguns de Meus Livros”, organizada e traduzida por Fabiano Barboza Viana (como Scheibe, rousselmaníaco de carteirinha).

A seleção inclui o ensaio considerado seu testamento literário (e de fato deixado com seu advogado, com orientações restritas para sua publicação póstuma), além do conto “Entre os Negros” (que em 1910 daria origem ao volume “Impressions d’Afrique”) e do capítulo inicial do estudo “Da Angústia ao Êxtase”, do psiquiatra Pierre Janet, precursor da psicanálise, mestre de Jung e médico de Roussel.

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Leia também um trecho da tradução de Locus solus >>>

Objetos verbais não identificados (ensaio de Flora Süssekind)

O Globo publicou hoje (21/9/2013) ensaio de Flora Süssekind que aborda, entre outros livros, Delírio de Damasco, de Veronica Stigger

Há, também, transferência material em “Delírio de Damasco”, de Veronica Stigger, que foi originalmente uma exposição de parte dos textos compilados no livro, realizada, em 2010, em tapumes da unidade 24 de maio do SESC São Paulo. Se o caráter verbal dos fragmentos de conversa ouvida ao léu, das frases recortadas ou inventadas, é semelhante na mostra e no livrinho, da dimensão minúscula da publicação parece emergir a ideia de uma apropriação meio secreta, indevida, fantasiosa às vezes, do rumor da rua. O que assinalam, mais uma vez, de cara, as epígrafes à beira do contraditório — sobre o que a frase ouvida casualmente conteria de presságio (De Quincey) e o comentário de Oswald — “A gente escreve o que ouve — nunca o que houve”. Livro composto inteiramente de vozes, que dialoga, assim, tanto com as apropriações oswaldianas, quanto com a poesia coral de Francisco Alvim. E assinala um processo de composição via ready-made — como é o seu em “Destinos” (extraído das linhas de ônibus paulistas) ou “Luana”, de “Gran Cabaret Demenzial”, em toda a seção “Histórias da Arte” de “Os anões”, nos reclames, conselhos caseiros, ilustrações de época que irrompem, vez por outra, em “Opisanie Swiata”, e se mantêm ali, soltos, desencaixados, quase coisas, como Bopp, o senhor Andrade, Opalka, cujo decalque obrigatório cria uma espécie de relevo, de rugosidade, em narrativa enganosamente ligeira, plana.

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Pequenas, mas atrevidas, por Joselia Aguiar (Valor Econômico)

Matéria de Josélia Aguiar sobre editoras independentes (entre as quais, a Cultura e Barbárie), publicada no Valor Econômico de hoje (30/8/2013):

“O caminho das editoras independentes não pode ser o da imitação das grandes: devem buscar um modelo próprio e singular a cada uma, seja no catálogo, no processo produtivo, na relação com os autores e leitores, de preferência nos três eixos. Pelo menos é como tentamos fazer”, defende Alexandre Nodari, um dos fundadores da Cultura e Barbárie, de Florianópolis. Como “linhas de fuga ao consenso”, a Edições Chão da Feira escolhe títulos que “modificam a cartografia do que é pensável, nomeável, do que é perceptível e, também, do que é possível”, define Maria Carolina Fenati, uma das editoras que constituem um núcleo que se estende por Belo Horizonte, São Paulo, Rio, Lisboa e Porto. Rachel Gontijo, uma das sócias da carioca A Bolha, lembra que “comprar um livro de uma editora independente é uma forma de ativismo, assim como escrever sobre produções independentes”.

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Subversão das formas da existência: Revista ‘Acéphale’, de Georges Bataille, ganha tradução no Brasil (O Globo)

Matéria de Guilherme Freitas sobre a Acéphale, publicada nO Globo de 10/8/2013:

 “O homem escapou da sua cabeça como o condenado da prisão”, escreve Georges Bataille no primeiro número da revista “Acéphale”, que fundou em 1936 com artistas e intelectuais de seu círculo, como Pierre Klossowski, Georges Ambrosino e André Masson. O desenho de Masson estampado na capa lembra a clássica figura humana representada por Leonardo da Vinci — só que não tem cabeça, segura um coração em chamas numa mão e um punhal na outra, e ostenta uma caveira no lugar dos órgãos genitais.

“Acéphale” era ainda o nome de uma sociedade secreta criada pelo filósofo na época. Diz-se que ela se desfez depois de seus membros tentarem organizar, sem sucesso, um sacrifício humano.

A revista também teve vida curta: apenas cinco números, entre 1936 e 39. Mas registra uma fase crucial do pensamento de Bataille, em meio a seu rompimento com o grupo surrealista de André Breton e a escalada nazifascista que levou à Segunda Guerra.

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“Testemunha auricular”, por Edu Almeida

Coluna de Edu Almeida no Correio Popular (29/05/2013) sobre Delírio de Damasco, de Veronica Stigger:

Testemunha auricular

É um projeto curioso, literalmente e literariamente. Literal porque exige prontidão para capturar conversas alheias, descobrir nelas o que há de incompleto, ambíguo e intrigante, ser enxerido mesmo. Literário porque as falas, devidamente apropriadas e transcritas, rendem livro, tornam-se públicas, voltam às ruas em novo formato. Ora, se um mictório retirado do banheiro se fez arte ao ser levado à sala de exposição, algumas frases recolhidas diretamente da boca do povo podem seguir a mesma lógica e se transformar em literatura quando fixadas no papel. Refiro-me ao livro Delírio de Damasco, criado às orelhadas por Veronica Stigger, a partir de conversas entreouvidas nas ruas da cidade.

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Veronica Stigger: ‘As frases contêm elementos que fazem o leitor pensar, imaginar o que pode estar ali por trás’

Entrevista concedida por Veronica Stigger ao nós da comunicação sobre Delírio de Damasco:

No livro ‘Delírio de Damasco’ (Ed. Cultura e Barbárie, 2012), a gaúcha Veronica Stigger registrou frases entreouvidas por aí. Captados nas ruas da metrópole, os fragmentos de discurso podem ser enigmáticos, eróticos, divertidos ou vazios, mas sempre intrigantes. “Uma frase deslocada de seu contexto original pode adquirir sentidos renovados”, diz a autora. “Acredito que um certo momento da nossa sociedade está inscrito nessa sequência de frases. Por isso, gosto de pensar que o que fiz foi uma espécie de arqueologia poética do presente.” Confira a entrevista:

Nós da Comunicação – O que revelam os fragmentos de conversas pinçados aqui e ali nas ruas de uma metrópole?
Veronica Stigger –
 Em geral, os fragmentos giram em torno da tríade mais frequentada nas conversas brasileiras (e talvez não só nestas, mas vivemos aqui…): sangue, sexo e grana.

Nós da Comunicação – Como foi o processo de escolha e edição das frases que compõem o livro?
Veronica Stigger – 
Dentre os tantos fragmentos que ouvi por aí, selecionei aqueles que possibilitavam as mais diferentes leituras e aqueles que chamam a atenção pelo inusitado do assunto ou pela maneira especialmente significativa como são ditos. Acredito que um certo momento da nossa sociedade está inscrito nessa sequência de frases. Por isso, gosto de pensar que o que fiz foi uma espécie de arqueologia poética do presente.

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