Totemsemia [Atual n.2]

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Totemsemia

Diz-que Odisseu escapou da grota de Polifemo dizendo chamar-se Outis, Ninguém. Polifemo criava ovelhas, mas não as comia. Os humanos, que entravam em sua grota para roubar-lhe o vinho e os quitutes, ele comia. Comeu de dois em dois os companheiros de Odisseu, e depois bebeu o vinho. E acabou cego. Ninguém fugiu, sob a pele das ovelhas. Até hoje.

Odisseu foi o pai da massa. O primeiro Ninguém esquivando-se entre os dedos do mundo. Depois dele, a cada um é dado o direito de ser joão ninguém, ou maria alguma coisa. A cada um, mas nem todos. Tem gente que não teve saída. Quem se dizia gente ganhou nome, uns dos outros, ou ainda da comida que primeiro veio pulando. Nome errado, nome trocado, tomado ou errante. Cariba, Caniba, Canibal, Caliban. E a ontologia tentou, em vão, substituir a errática dos nomes. Mas o índio não tinha o verbo ser.

Até hoje: gente que não é, mesmo quando os nomes não somem. Eles não são como vocês. São como os que comiam vocês. Ou são, mas não somam. São sôma anômala. De nomes alheios e nomes do alheio. Para quem o nome próprio é a apropriação do nome. Pronome. Indefinido, torto, oblíquo. Atravessando.

Se a história do homem é a história da sua fome, a do antropófago é a da devoração do nome. Heteronímia canibal. Semiofagia: é a carne, é a ideia. Ter muitos nomes é um jeito de ser sem O nome. Como o nome. Sem dúvida ontológica. Conflito odontológico: tupi or not tupi.

E temos que escolher: sob a pele das ovelhas ou sob os nomes dos índios? Nomes que subsistem. Daqueles cujo rastro identifica o conflito existente entre o Brasil caraíba, verdadeiro, o outro, que só traz o nome. Não somos Ninguém. E estamos recrutando fatores postos à margem. Forças escondidas. Mal apalpadas. Que ainda não couberam no sistema métrico ocidental. Índio. A multiplicação de todos os nomes.

Somos a reação da paisagem contra o tempo. Nomen nudum, de homem totem. Onomatotema. Somos… krenak, xerente, ticuna, krahô, tukano, trumai, patamona, karipuna, hixkaryana, waiwai…

E não sumimos. Nós, os outros. Nósoutros. Nosoutros.

(Publicado na coluna da C&B do Atual n.2 e inspirado em Totem, de André Vallias)

Lançamento de Minha novela, de Veronica Stigger

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A Cultura e Barbárie e a Cosac Naify convidam para o lançamento de

Minha novela e Opisanie świata
de Veronica Stigger

(com a presença da autora)

Quinta-feira, dia 5 de dezembro, às 19:00
na  Sala Drummond – CCE Bloco B – UFSC – Florianópolis

 
Minha novela
Uma emocionante história de amor, crueldade e redenção narrada por Veronica Stigger com fotodramas de Eduardo Sterzi
76 pgs | 14,5 x 10cm | Impressão à cera sólida, costura manual | Cultura e Barbárie, 2013

Opisanie świata
Primeiro romance de Veronica Stigger, com orelha de Flora Süssekind
160 pgs | 14 x 20cm | Cosac Naify, 2013

Locus solus, de Raymond Roussel [Novo título]

capa-locus-solusxA espera acabou. A primeira tradução brasileira de Locus solus já está à venda pelo nosso site.

Locus solus
de Raymond Roussel

Tradução e apresentação de Fernando Scheibe
Prefácio de Raul Antelo | Posfácio de Pierre Bazantay
Capa e projeto gráfico de Marina Moros

pseudo- coleção de literatura | 344 páginas | 14 x 21

Preço: R$45,00 [ frete incluso ]

[ Clique aqui para adquirir ]

Locus Solus, publicado em 1914, é considerado o principal livro de Raymond Roussel (1877-1933), autor que fascinou os surrealistas, os nouveaux romanciers e pensadores como Michel Foucault e Gilles Deleuze e que, segundo César Aira, através de seu procedimento, deixou, pela primeira (e única?) vez, a literatura nua.

A tradução contou com o apoio do Centre National du Livre, que concedeu ao tradutor uma bolsa e uma estadia de três meses no Collège International des Traducteurs Littéraires. A edição conta também com uma apresentação do tradutor, um prefácio de Raúl Antelo e um posfácio do crítico francês Pierre Bazantay, um dos maiores estudiosos da obra de Roussel, co-autor do Pequeno dicionário de Locus Solus.

O projeto gráfico, concebido e executado por Marina Moros, se inspira na “cibernética aplicada à literatura” de Roussel (como aponta Enrique Vila-Matas), utilizando imagens de invenções patenteadas em 1914, o desenho da famosa demoiselle hie feito por Jean Ferry a partir do texto de Roussel e o estudo de Leonardo da Vinci sobre a impossibilidade do moto perpétuo.
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Sobre o livro

Sobre o autor

  • Sopro 98: Dossiê Raymond Roussel (editado por Fernando Scheibe, com textos de César Aira, Laurent Jenny, John Ashbery, Paul Eluard, Robert Desnos, Jean-Jacques Pauvert, André Breton, Claudio Willer, Dominique Nédellec, Roger Vitrac, Fabiano Barboza Viana, Jean Cocteau, Kelvin Falcão Klein, Patrick Besnier, Phillippe Soupault, Osvaldo Fontes Filho, Georges Bataille, Robert de Montesquiou, Michel Leiris, Marta Dantas, Leonardo Sciascia, além de dois fragmentos do manuscrito inicial de Locus Solus cortados da versão final e uma ilustração de Marina Rosenfeld Sznelwar e Beatriz Matuck; colaboraram traduzindo: Byron Vélez Escallón, Paolo Colosso, Alexandre Nodari, Joca Wolff, Diego Cervelin, Pablo Simpson, Thiago Mattos, Marcelo Jacques de Moraes, Paula Glenadel, Fernando Scheibe, Fabiano Barboza Viana, Ruy Luduvice, Antonio Carlos Santos, Liliane Mendonça, Fedra Rodríguez Hinojosa, Felipe Vicari de Carli e Eduardo Sterzi; a imagem da capa foi gentilmente cedida pelo artista marcus parcus).