Apresentação de Delírio de Damasco, por Flávia Cera

Abaixo, o texto lido por Flávia Cera na apresentação de Delírio de Damasco, livro de Veronica Stigger, dia 28 de novembro de 2012, em Florianópolis

 

É difícil passar indiferente à leitura dos textos de Veronica Stigger. Seja pela forma ou pela força de seus textos, seja pelo contorcionismo ou despedaçamentos dos corpos que os habitam. Em Delírio de Damasco, não é diferente. Nele, Veronica se arrisca em uma literatura-limite. No limite da ficção, da narrativa, do sentido, no limite da literatura. Daí que ela se aproxime do procedimento arqueológico, como apontou Victor da Rosa. Mas trata-se de uma arqueologia específica: Veronica atua como uma “arqueóloga mal-comportada”, à maneira de Flávio de Carvalho, porque através “da força penetrante da elaboração poética” faz ressoar “a plástica do resíduo” e reestabelece “o tumulto anímico da época examinada”. Esta poderia figurar como uma hipótese para compreender a sua proposição de uma “arqueologia da linguagem do presente”. A plasticidade dos resíduos, os restos de conversas, de exclamações, de perguntas que sobrevivem no Delírio de Damasco atuam pelo mecanismo da sugestibilidade que potencializa futuras histórias, microcosmos, “mitos menores”: “Isso é o que ela sente? Ou o que sente o coração dela?” “Essa lagoa é ótima para quem quer casar. Basta dar três mergulhinhos” ou ainda “Depois do paraíso, ele vai para onde?”. “Uma coisa jogada ao acaso no mundo [é] transformada numa coisa transbordante de sugestibilidade [que] adquire ‘atmosfera’”, dizia Flávio sobre os Ossos do Mundo.

Os pequenos fragmentos de Delírio de Damasco seguem o procedimento de esvaziamento do sentido e economia da linguagem, uma economia libidinal da linguagem, com o qual Veronica vem marcando, com extrema contundência, suas histórias. É como se ela esvaziasse a linguagem da camada de ar que compõem a sua atmosfera. Mas essa economia não aponta para o fim da narrativa, que seria também uma forma de anular a experiência e a história. Não se trata disso, ao contrário: Veronica sabe onde cortar e como cortar. Sabe frisar, abrir sulcos, dar ênfase e produzir efeitos, inverter e subverter mecanismos. Neste sentido, inscreve-se também na sua literatura a marca indelével do pulsional que Lacan certa vez definiu como uma maquinaria surrealista: “a marcha de um dínamo acoplado na tomada de gás, de onde sai uma pena de pavão que vem fazer cócegas no ventre de uma bela mulher que lá está incluída para a beleza da coisa. A coisa começa aliás a se tornar interessante pelo seguinte, que a pulsão define, segundo Freud, todas as formas pelas quais se pode inverter tal mecanismo”.

“A gente escreve o que ouve e nunca o que houve”, eis a questão; e com isto em mente Veronica consegue escapar ao diagnóstico de Flávio de Carvalho, a saber, que “o homem vive no seu mundo, mas raramente se dá ao trabalho de examinar o mundo em que vive”. Escapa, portanto, a este diagnóstico roubando das conversas cotidianas, dos usos mais triviais da linguagem o absurdo da poesia e a poesia do absurdo. A instalação que iniciou este livro tinha o nome de “Pré-Histórias, 2”: o mais arcaico no contemporâneo. Neste procedimento estão as marcas primitivas, os arqui-traços fantasmáticos, que se abrem ao inesperado dos encontros que virão, aos efeitos que produzirão em cada leitor, às atmosferas que se criarão a partir dessa aventura arqueológica e literária que Veronica soube fazer como ninguém.

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