Sopro 82 (dez/2012)

 

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Sopro 82
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Sarau, texto de Eduardo Sterzi sobre exposição homônima de Veronica Stigger em exposição na Casa do Brasil em Bruxelas.
Notas para a reconstrução de um mundo perdido, de Flávio de Carvalho:

XXIX: A dupla personalidade e a alma
XXX: Nas fronteiras do bem e do mal
XXXI: Nas portas do país do sonho

 

[ Algumas das Pré-histórias da exposição de Veronica Stigger apareceram no Sopro 42, e no livro Delírio de Damasco ]

Notas para a reconstrução de um mundo perdido é um conjunto de 65 textos de Flávio de Carvalho publicados no Diário de S. Paulo entre janeiro de 1957 e setembro de 1958. Os primeiros vinte e quatro textos da série aparecem sob o título Os gatos de Roma. A partir da nota 25, a série passa a ser intitulada como Notas para a reconstrução de um mundo perdido. A republicação dessas Notas no Sopro não pretende trazer um material de arquivo morto, ao contrário: a aposta é lançar esse pensamento intempestivo e fascinante para que ele produza efeitos no presente. O que podemos adiantar é que se trata de um trabalho ambicioso realizado por um “arqueólogo mal-comportado”, como Flávio mesmo se definiu. As Notas foram reproduzidas e transcritas por Flávia Cera, a partir de pesquisa realizada no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Clique aqui para acessar todas as Notas já publicadas no Sopro ]

 

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Saiu na Imprensa: “Painel das Letras”, por Raquel Cozer

Saiu, no Painel das Letras (de Raquel Cozer) da Folha de S. Paulo desse sábado (15/12/2012), uma pequena nota sobre a Cultura e Barbárie:

Caseira 1 A Cultura e Barbárie, que terceirizava acabamento e impressão de seus livros, agora faz tudo internamente. Espera ampliar o catálogo e ter edições mais personalizadas, como “Delírio de Damasco”, de Veronica Stigger, costurado à mão.

Caseira 2 Para 2013, estão previstos os inéditos “A Psicanálise e o Inconsciente”, de D.H. Lawrence, traduzido por Alexandre Nodari, e “Locus Solus”, de Raymond Roussel, por Fernando Scheibe.

Nota sobre “O que são os ervais?”, por Fernando Boppré

Em sua coluna do caderno Cultura do Diário Catarinense do último sábado (08/12/2012), Fernando Boppré comentou o livro O que são os ervais, publicado pela editora Cultura e Barbárie

Para o sul do páis, entender a lógica fundiária injusta existente nos campos de produção da erva-mate seria um ótimo começo. O que são os ervais? é o título de um conjunto de textos breves sobre os ervais no Paraguai, numa crônica anarquista ‘contra a escravidão, tortura e morte do peão ervateiro’ (fragmento do prefácio Sobre fronteiras e ervais: cem anos sem Barrett, de Alai Garcia Diniz). O livro foi lançado pela ótima editora Cultura e Barbárie

“Além do mais”, por Fernando Boppré

Em sua coluna do caderno Cultura do Diário Catarinense do último sábado (08/12/2012), Fernando Boppré comentou o evento Joan Brossa e a poesia catalã: conversa com Ronald Polito, organizado pela Cultura e Barbárie

Joan Brossa em português

Uma resposta à ilegitimidade do Estado foi dada pela poesia do catalão Joan Brossa (1919-1998). Em tempos do franquismo, cada podema deveria ser como um tiro. Um trabalho meticuloso de tradução para o português está sendo levado a cabo, há anos, por Ronald Polito.

Notas sobre o debate

No último sábado, Ronald Polito esteve em Florianópolis participando de um debate ocorrido durante o lançamento do livro Escutem esse silêncio (Lumme Editor, 2012), com cerca de 50 poemas inéditos de Brossa em português, cujo prefácio é assinado por Victor da Rosa. Uma das melhores frases de Polito foi: “A poesia não tem nada a ver com a literatura. É música, é pintura, é cinema, menos literatura”. E o acaso se rendeu ao evento: não é que dois clowns catalães que conheceram Joan Brossa – e que estavam passeando por Florianópolis – acabaram participando do debate contando as suas experiências com o poeta? Foi incrível.

Apresentação de Delírio de Damasco, por Flávia Cera

Abaixo, o texto lido por Flávia Cera na apresentação de Delírio de Damasco, livro de Veronica Stigger, dia 28 de novembro de 2012, em Florianópolis

 

É difícil passar indiferente à leitura dos textos de Veronica Stigger. Seja pela forma ou pela força de seus textos, seja pelo contorcionismo ou despedaçamentos dos corpos que os habitam. Em Delírio de Damasco, não é diferente. Nele, Veronica se arrisca em uma literatura-limite. No limite da ficção, da narrativa, do sentido, no limite da literatura. Daí que ela se aproxime do procedimento arqueológico, como apontou Victor da Rosa. Mas trata-se de uma arqueologia específica: Veronica atua como uma “arqueóloga mal-comportada”, à maneira de Flávio de Carvalho, porque através “da força penetrante da elaboração poética” faz ressoar “a plástica do resíduo” e reestabelece “o tumulto anímico da época examinada”. Esta poderia figurar como uma hipótese para compreender a sua proposição de uma “arqueologia da linguagem do presente”. A plasticidade dos resíduos, os restos de conversas, de exclamações, de perguntas que sobrevivem no Delírio de Damasco atuam pelo mecanismo da sugestibilidade que potencializa futuras histórias, microcosmos, “mitos menores”: “Isso é o que ela sente? Ou o que sente o coração dela?” “Essa lagoa é ótima para quem quer casar. Basta dar três mergulhinhos” ou ainda “Depois do paraíso, ele vai para onde?”. “Uma coisa jogada ao acaso no mundo [é] transformada numa coisa transbordante de sugestibilidade [que] adquire ‘atmosfera’”, dizia Flávio sobre os Ossos do Mundo.

Os pequenos fragmentos de Delírio de Damasco seguem o procedimento de esvaziamento do sentido e economia da linguagem, uma economia libidinal da linguagem, com o qual Veronica vem marcando, com extrema contundência, suas histórias. É como se ela esvaziasse a linguagem da camada de ar que compõem a sua atmosfera. Mas essa economia não aponta para o fim da narrativa, que seria também uma forma de anular a experiência e a história. Não se trata disso, ao contrário: Veronica sabe onde cortar e como cortar. Sabe frisar, abrir sulcos, dar ênfase e produzir efeitos, inverter e subverter mecanismos. Neste sentido, inscreve-se também na sua literatura a marca indelével do pulsional que Lacan certa vez definiu como uma maquinaria surrealista: “a marcha de um dínamo acoplado na tomada de gás, de onde sai uma pena de pavão que vem fazer cócegas no ventre de uma bela mulher que lá está incluída para a beleza da coisa. A coisa começa aliás a se tornar interessante pelo seguinte, que a pulsão define, segundo Freud, todas as formas pelas quais se pode inverter tal mecanismo”.

“A gente escreve o que ouve e nunca o que houve”, eis a questão; e com isto em mente Veronica consegue escapar ao diagnóstico de Flávio de Carvalho, a saber, que “o homem vive no seu mundo, mas raramente se dá ao trabalho de examinar o mundo em que vive”. Escapa, portanto, a este diagnóstico roubando das conversas cotidianas, dos usos mais triviais da linguagem o absurdo da poesia e a poesia do absurdo. A instalação que iniciou este livro tinha o nome de “Pré-Histórias, 2”: o mais arcaico no contemporâneo. Neste procedimento estão as marcas primitivas, os arqui-traços fantasmáticos, que se abrem ao inesperado dos encontros que virão, aos efeitos que produzirão em cada leitor, às atmosferas que se criarão a partir dessa aventura arqueológica e literária que Veronica soube fazer como ninguém.

Áudio de “Joan Brossa e a poesia catalã – conversa com Ronald Polito”

“A última coisa que a poesia é é literatura”: Áudio do Encontro Cultura e Barbárie “Joan Brossa e a poesia catalã – conversa com Ronald Polito”, que ocorreu dia 1 de dezembro de 2012, no Café Cultura (Centro-Florianópolis) com mediação de Victor da Rosa (na ocasião foi lançado o livro Escutem esse silêncio, de Joan Brossa, traduzido por Ronald Polito, e apresentado por Ronald Polito e Victor da Rosa (Lumme Editor, 2012)).