Carta pública a ABDR

Na recente ação movida contra o site livrosdehumanas.org e seu mantenedor, que acarretou, devido à decisão liminar da Justiça Paulista, a retirada do ar desta biblioteca virtual, a ABDR anexou à sua petição uma lista de obras e autores cujos direitos estariam sendo violados pela sua reprodução no referido site. Entre as obras, encontram-se três títulos da editora Cultura e Barbárie, que vem a público manifestar a total ausência de legitimidade da ADBR para representá-la, na medida em que 1) não é associada de uma tal organização (que consideramos, ademais, defensora não dos autores, mas dos intermediários, cujo interesse defende apelando publicamente para a situação precária dos criadores brasileiros), e 2) autorizamos expressamente a reprodução de nossas obras no livrosdehumanas.org. A ação da ABDR tem como objeto dois livros específicos das editoras Forense e Contexto; todavia, a imensa lista de obras anexada por ela em sua petição pode ter influenciado a decisão liminar do juiz, de modo, a nosso ver, errôneo, tendo em vista que nem todas as obras listadas foram publicadas por associadas da ABDR (algumas são de editoras internacionais), e muitos autores e editoras autorizaram expressa ou tacitamente a reprodução. Em nosso entendimento, não cabia decisão liminar nesse contexto, já que em nenhum momento se refletiu sobre a natureza jurídica do site livrosdehumanas.org, que, em nosso entendimento, não é um repositório ilegal de obras, mas uma biblioteca virtual da maior relevância, o que seria facilmente constatável pelo fato publicamente conhecido de que não possui fins lucrativos.

A liberdade de pensamento nos sistemas jurídicos contemporâneos não apenas garante os direitos de autor, devendo colocá-los numa balança com o direito de acesso. Sem a circulação das mais diversas e diferentes expressões culturais, não há criação possível. Em um país tão carente de bibliotecas, em que livrarias e editoras abocanham a quase totalidade do valor de uma obra, defender a retirada de uma biblioteca virtual como o livrosdehumanas.org em nome dos direitos autorais é (além de defender uma concepção formalista do Direito, pois é de conhecimento do mundo mineral que, no mercado editorial, direitos de autor são direitos do editor, que não é o criador, mas o intermediário) atacar frontalmente a liberdade de pensamento em nome de uma visão patrimonialista e anti-democrática desse direito fundamental.

Desse modo, a Cultura e Barbárie demanda que a ABDR retire imediatamente da referida lista os seus títulos, sob pena de estar influenciando equivocadamente (e, após essa nota pública, de má-fé) o juiz da causa. Além disso, esperamos que esse siga o exemplo do Poder Judiciário argentino, que, em uma causa semelhante, referente ao site Derrida en castellano, decidiu não ter havido violação de direitos.

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Cronocrítica – a propósito do livro de César Aira (por Marcia Tiburi)

Recentemente, Marcia Tiburi, em seu blog, comentou Nouvelles Impressions du Petit Maroc, livro de César Aira publicado pela Cultura e Barbárie

O livro Nouvelles Impressions du Petit Maroc do argentino César Aira publicado naquele sonho de consumo de editora que é a Cultura e Barbárie de Santa Catarina, me inspirou a inventar um gênero de escrita que, a propósito, já deve existir e que chamo neste instante batismal de Cronocrítica. Mas quem nunca inventou o que já existe? E como o inventei agora ainda estou naquele estado de ebriedade que se tem quando surge uma ideia. Já deve ter acontecido a todo mundo… É o que espero. Quanto a mim, de vez em quando e me dá muito prazer.

A sensação é de uma alegria que os invejosos chamarão maníaca enquanto os generosos entenderão como êxtase. Talvez eu mesma já tenha inventado isso antes, pois penso não ser a primeira vez que escrevo falando da leitura no tempo da leitura e da alegria da leitura que gera essa necessidade um livro, de um texto. A cronocrítica é a escrita de um outro texto que nasce porque se leu um texto e se sentiu comovido por ele. Como se o texto, essa coisa feita de letras, umas ao lado das outras, estivesse nos carregando num deslocamento entre o sentido de estar aqui e estar ali, de ver assim ou ver de outro jeito. Entre ser, na verdade, escritor e leitor.

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Sopro 70 e 71

Sopro 70 (abril de 2012)

O hiperrealismo das mudanças climáticas e as várias faces do negacionismo(Déborah Danowski)

As mudanças climáticas se incluem na classe desses objetos especiais que Timothy Morton chamou recentemente de “hiperobjetos”. Hiperobjetos são um tipo relativamente novo de objetos que, segundo Morton, desafiam a percepção que temos (ou que o senso comum tem) do tempo e do espaço, porque estão distribuídos de tal maneira pelo globo terrestre que não podem ser apreendidos diretamente por nós, ou então que duram ou produzem efeitos cuja duração extravasa enormemente a escala da vida humana conhecida.. [Continuar lendo…]

Notas para a reconstrução de um mundo perdido (Flávio de Carvalho)


Sopro 71 (maio de 2012)

Autobiografia como Des-figuração (Paul de Man)

A teoria da autobiografia está minada por uma série recorrente de questões e abordagens que não são simplesmente falsas, no sentido de serem forçadas ou aberrantes, mas são limitadoras ao darem por garantidos pressupostos sobre o discurso autobiográfico que são, na verdade, altamente problemáticos. Elas se mantêm, portanto, obstaculizadas, com previsível monotonia, por uma série de problemas que são inerentes a seu próprio uso. Um desses problemas é a tentativa de definir e tratar a autobiografia como se ela fosse um gênero literário entre outros. Uma vez que o conceito de gênero designa uma função tanto estética quanto histórica, o que está em jogo é não somente a distância que protege o autor de autobiografia de sua experiência, mas a possível convergência de estética e história. [Continuar lendo…]