A comunidade dos espectros. I. Antropotecnia

Texto de Leonardo D’Ávila de Oliveira lido na apresentação de A comunidade dos espectros. I. Antropotecnia, de Fabián Ludueña Romandini.

Glauber Rocha em 1977 no romance Riverão Sussuarana, que era uma espécie de faroeste no imaginário brasileiro com tons de literatura policial, escreve em uma de suas passagens mais notórias as seguintes palavras:

“Se minha Voz musicasse – cantou Rosa! – Se minha Voz fosse Cor! O Dyabo não seria tão feio como se pinta.”

Em um duplo gesto Glauber, portanto um cineasta que se atém mais às imagens puras do que às palavras, anuncia uma Voz que pode ser Cor e que pode ser música diretamente. Assim, o autor pensa que, com um reconhecimento da Voz mais como Cor do que como sombra, o Diabo não seria mais tão diabólico, pois estaria fora do padrão hierárquico que coloca este demônio no cúmulo mais baixo da hierarquia cristã de valores. Nesta hipótese, o demoníaco teria de concorrer de igual para igual com outros seres mitológicos, perdendo sua razão de ser. O demoníaco assim poderia ser refratado em fauno, djin, Titã, boto, entre outras possibilidades. Essa preocupação de Glauber em ver na Voz Cor ou Som, pode ser ainda ampliada em um segundo questionamento mais fundamental: Tudo aquilo que não é exatamente representável deve necessariamente permanecer impensado?

Essa é a pergunta que permeia todo o trabalho de Fabián Ludueña Romandini, autor que, antes aceitar a destruição da metafísica postulada por Heidegger e desenvolvida com afinco por seus herdeiros, entende que, para se compreender a política e o direito em sua forma mais pura, não se pode abdicar do mitológico, do cosmológico, do oracular e do espectral. Em outras palavras, ao aceitar o desafio de uma metafísica crítica dado dez anos antes de seu trabalho pelo coletivo Tiqqun, Ludueña pretende, mais do que fazer uma filosofia pós-metafísica, esclarecer como o dinheiro, o humor das bolsas de valores, a propriedade intelectual, entre muitos outros aspectos mais contemporâneos de nossa vivência, são pura metafísica e apenas podem ser compreendidos de forma mais clara, por assim dizer, metafisicamente.

No entanto, mais do que apenas postular esse tipo de gesto, Ludueña estabelece, com o apoio de estudos filológicos muito apurados, todo um novo ramo de investigações o qual pretende demonstrar que não só na vida se baseiam os dispositivos de poder, mas também o campo espectral. Ou seja, enquanto é corriqueiro o pensamento da política moderna sob o paradigma da politização, qualificação ou controle sobre a vida, mesmo em sua forma mais bruta, Fabián Ludueña pretende demonstrar como esse tipo de controle se dá em conformidade com determinações também sobre o domínio da morte. Assim sendo, todas as técnicas que agem sobre a vida tomam como paradigma uma dimensão espectral, portanto fora da própria animalidade e mais além de todo o factual. Ao estudo desses saberes e técnicas que pretendem moldar não apenas em nome do além, mas instrumentalizando o sobrenatural, Ludueña dá o nome de espectrologia.

Jovem filósofo que compõe o quadro de professores catedráticos da Universidad de Buenos Aires, na qual é investigador do Instituto “Gino Germani” e bolsista do CONICET, Fabián Ludueña cursou seu doutorado na École d’Hautes Études en Sciences Sociales, onde estudou sobretudo a filosofia renascentista sob a orientação de Roger Chartier, resultando em seu trabalho Homo Oeconomicus: Marsilio Ficino, la teologia y los mistérios paganos, publicado em Buenos Aires e Madrid em 2006 pela editora Miño y Dávila. Neste seu primeiro livro, o autor desenvolve, a partir da máxima de Warburg de que as divindades pagãs nunca deixaram de estar presentes na cultura européia, um estudo curiosíssimo sobre Marsilio Ficino, humanista do final da renascença, para demonstrar que, apesar de ser responsável por grande parte da difusão da tradição clássica em seu tempo, o florentino, antes de ser alguém que simplesmente resgatou a antiguidade, foi alguém que a adaptou, dando-lhe um tom de ascetismo em um claro gesto de instrumentalização: pois associava a transcendência presente em saberes cosmológicos, herméticos ou mitológicos em um esforço paralelo de gestão imanente sobre a vida. Divina Providência e Governo Divino se unem então ao poder que atua na vida biológica, resultando, além da forma oikonômica de governo em uma teologização da astrologia ou na ascese filosófica perante o desejo. Neste contexto, os deuses pagãos dos quais a ciência sem nome de Warburg falava não poderiam vir senão de forma amenizada e ordenada perante a ordem religiosa. Nisto, o autor demonstra como Marsilio Ficino opera a burocratização de seres sutis como os demônios, assim como a submissão do corpo à alma divina, ou então a contenção do amor aos rapazes, perfazendo uma moralização dos impulsos antigos.

Essa noção de Sobrevivências – sobre as quais diz serem Nach sem Leben – persistentes, mas que estão sujeitas a serem articuladas com um poder sobre a vida, é recolocada em outros termos quando Ludueña escreve o prefácio do livro Pequeno Manual de Inestética de Alain Badiou em sua edição argentina em 1999, no qual fica muito evidenciado como ele lê as Pathosformelm de Warburg, algo como emoções fundamentais, não necessariamente relacionadas a qualquer psicologismo individual ou coletivo, mas pretende pensar sua existência afastada da própria idéia de vida. Para isso, o autor adentra na problemática da teoria dos objetos de Alexius Meinong para tentar salientar uma prevalência das imagens sobre os signos e principalmente que as emoções antropogenéticas fundamentais que as imagens transmitem não seriam adaptações da Ideia, como quer Badiou, mas que teriam um valor primordial e independente que a fenomenologia não pode e não quer compreender. Em busca da definição do que sem dúvida não é fatual, mas que também não é meramente “mundo de ficção” ou psicologismo de um sujeito, Fabián Ludueña não tenta achar um espaço entre ser e não-ser, mas procura cartografar espectros em suas relações ao ser.

E essa jornada começa oficialmente em A comunidade dos espectros. I. Antropotecnia, que a editora Cultura e Barbárie agora tem o grande prazer de apresentar ao leitor brasileiro. Neste grandioso livro seu autor demonstra com enorme lucidez que não há na tradição ocidental exatamente alguma separação originária entre vida animal e vida humana, mas tão somente técnicas para o domínio da animalidade na promessa de um dia o animal homem poder se livrar definitivamente dela, alcançando sua verdadeira humanidade espectral. Isto se daria quando o aperfeiçoamento oferecido, por exemplo, pela eugenia, fosse capaz de dirimir qualquer animalidade, justamente uma finalidade contrária ao que entende a filosofia que se seguiu a Alexander Kojève, a qual postularia um reencontro com a animalidade no fim da história. Dito isto, no proceder antropotécnico, cujo maior patrocinador passa a ser curiosamente o cristianismo, o mundo se viu logo povoado de espectros e, desde então, firmou-se a esperança de uma vida não mais animal, mas espectral: o cristianismo postulou, em última instância, a morte da morte e com isso toda uma gama de tecnologias de controle e seleção da vida animal. Entre outras conseqüências diretas dessa concepção, é possível assinalar que já não nos basta anunciar como paradigma político as exceções jurídicas como pura contingência, ou pura soberania sobre a vida nua. Essa solução, predominante hoje na filosofia política, justamente abdica de pensar o irrepresentável. Com sua espectrologia, porém, Ludueña sabe não poder analisar exatamente a história para conhecer alguma substância do vazio, mas procura, ao menos, evidenciar como essa exceção, essa indistinção entre lei e vida não se deu apenas no domínio do natural, mas também no domínio do sobre-natural, perfazendo até mesmo uma reconfiguração da própria morte. Por isso, diz o autor,

Somente uma ciência política que possa ser capaz de analisar o espaço político que se abre a partir da constituição de uma comunidade espectral poderá estar à altura da compreensão de nosso presente. Por isso também, toda análise conseqüente da zoopolítica implica necessariamente dar conta da dimensão da espectralidade a qual esta se associou, e sem a qual o horizonte político se torna ininteligível.

A tradução, empreendida por Alexandre Nodari e Leonardo D’Avila, foi estabelecida ao longo de um ano de discussões diretas com o autor, que forneceu, além de contribuições efetivas para as dificuldades que o texto apresentava, uma grande oportunidade de intercâmbio e interlocução quando abriu um espaço em suas aulas de pós-graduação para um diálogo direto com seus tradutores brasileiros, oportunidade à qual agradecemos imensamente nesta ocasião.

Sobre alguns aspectos mais imediatos dessa edição, vale lembrar que, embora o texto possua um acentuado rigor filológico, um vocabulário eminentemente técnico com os institutos com os quais trabalha e, sobretudo, uma densidade teórica digna do grande filósofo que é, Ludueña não possui uma linguagem pasteurizada, neutralizada. Muitíssimo ao contrário: toda essa exatidão terminológica não é óbice a uma leitura absolutamente virulenta sobre toda a tradição ocidental, que desmonta institutos jurídico-teológicos e conceitos filosóficos já pacificados e os seus respectivos pensadores – dos antigos até aqueles das últimas décadas.

Mas como será possível que um autor que pessoalmente parece ser tão ponderado e gentil possa ter um posicionamento tão – na falta de melhor palavra – hardcore com tantos autores aos quais responde? Seria talvez este paradoxo uma manobra retórica dos tradutores? Não, não é esta a questão. Isto porque o que Fabián Ludueña realmente nos ensina, é que diante da tradição com que trabalha, ele não é hostil necessariamente com os antigos ou com suas fontes; o que fica ameaçado é a própria tradição. Assim sendo, Ludueña não demoniza suas fontes. Ao trabalhar com elas na maneira mais profana possível, ficam escancaradas as classificações, as ordenações os compromissos pelos quais foram enovelados pensamentos a formas de vida, muitas das quais mais agradam aos mortos do que aos vivos. Mostra-se então que pavorosos não são os espectros que compõem ou se contrapõem à ordem: pavorosa é a própria ordem estabelecida com um fundo espectral. Portanto, Ludueña admiravelmente nos evidencia que todo elemento alheio a qualquer lógica, quando visto fora de alguma ordem transcendente, pode não ser tão feio como se pinta.

A grande novidade do livro, no entanto, é o fato de de não se contentar em tão somente inoperar as grandes hierarquias que se impõe em nosso mundo cada vez mais teológico pela via do subterfúgio, mas encará-las frente a frente, denunciando o que não se representa: mas com som e a cores, cartografando assim a pervivência sutil dos objetos de uma ciência sem nome. Quando se compreende, então, que toda a atualidade e a combatividade deste livro que apresentamos ao leitor brasileiro é fruto de uma lida direta e por isso criativa com os espectros, será possível perceber que, antes de ser uma travessura esquiva tramada por um demônio, trata-se, na realidade, da erupção de um Titã.